4.11.2007

Deu Hacker no Micro

Marlon solta uma imprecação em alto e bom som ao ligar seu micro naquela manhã de sábado. Na tela, uma imagem mostrava os estragos que o hacker causara no seu hd.

O desespero tomou conta do rapaz enquanto lembrava-se dos inúmeros arquivos importantes que perdera: a monografia da faculdade quase finalizada, os arranjos esmerados para a nova música do primo, os websites que estivera montando para alguns clientes que lhe permitiam salvar algum troco que ajudavam nas contas do mês. Horas, dias e noites perdidas - não havia salvação.

Soltou mais um suspiro inconformado e levantou-se para um copo de água fresca, como se aquele copo de água pudesse guarnecê-lo de energias para enfrentar o trabalho que viria pela frente.

Passou o restante do dia ajustando seu micro. Formatou, instalou seus softwares, configurou e atualizou todos. Ao chegar a madrugada conectou seu messenger para poder conversar com seus amigos. Quando finalmente desligou o micro, uma estranha sensação de dia perdido o invadiu. O estômago roncava, lembrando-lhe que não ingerira nada além de um copo d’água. Resolveu tomar um banho primeiro.

Enquanto se ensaboava pensava em quantas invasões ele e seus amigos já haviam sofrido. Por mais que se protegessem, o inimigo encontrava novas brechas. Quantas vezes já não fora invadido e atacado em sua vida? Em algumas encontrara soluções, em outras ocasiões saíra no prejuízo. Nem sempre tivera a experiência necessária para neutralizar os estragos em si, como fizera com seu micro.

Depois de algumas reflexões reparou que os revezes de sua vida sopraram a seu favor. Dava-se conta que a Internet e seu micro eram nada mais que um teatro da vida. Podia resolver grandes problemas no seu micro e, de vez em quando, apareciam alguns em que seu conhecimento não era o suficiente. Se perdesse este micro, montaria outro melhor. Assim como na vida, algumas vezes se perde, outras se ganha.

Teria seus problemas, enfrentaria todos. Sairia incólume em alguns e machucado em outros.
Colheria as sobras e com elas, montaria uma vida melhor.

Aloha! Namastê! Sawabona!

1.15.2007

Festivais de Música

Hoje postaram um comentário no blog que não autorizei por considerar que merecia um tópico.

Já que o papo hoje foi música, no Versos & Acordes a webmaster está fazendo um Festival de Música e Poesia. Dei uma olhada e baixei o regulamento. Vai lá na página do festival.

O site não faz discriminação e divulga festivais de musica de todo Brasil. Pegue seu violão e vá à luta!

Neste mesmo site, descobri links de Elis Regina e de Vinícius de Moraes. Se ainda não viu, não sabe o que está perdendo: Músicas.

Aloha! Namastê! Sawabona!

Raras (e boas) músicas on-line!

Oslodum de Gilberto Gil está disponível para download no site Domínio Público, sob licença Creative Commons - Sampling Plus License. Link direto: Obra 2649.

Dando voltas ao mundo virtual, conheci três blogs que merecem uma clicada com tempo pra quem gosta de música e coleciona sucessos do passado:
Mercado de Pulgas, Vinil Velho e Aisporecords que tem Versão 1 e Versão 2.

Sexy music, como o tango, pode ser encontrado no Cambalache.

Músicas Italianas são encontradas no L'Italia in Brasile e músicas latinas no Voy Music.

Aloha! Namastê! Sawabona!

11.21.2006

Projeto de despoluição

Antonio estava decidido a largar o cigarro no próximo final de semana. Planejara as noites de sexta-feira e sábado com afinco, acreditava que esses seriam os piores dias.

Seu projeto descrevia todos os seus passos, não sairia com a turma neste final de semana, passaria sozinho. leria, faria sua comida, veria alguns DVDs. Seu plano começaria hoje, depois de sair do trabalho. Iria a um bom shopping para aproveitar-se da lei que proibia o cigarro em suas dependências. Passaria o máximo de tempo possível olhando as vitrines e quando se cansasse, seguiria para uma das três livrarias. Compraria dois livros em cada uma. Tinha que escolher os livros que o acompanhariam naquilo que apelidara de "Projeto de Despoluição".

Os colegas de trabalho riam de seu propósito e faziam apostas dizendo que na segunda-feira ainda estaria fumando.

"Ninguém deixa de fumar de uma hora pra outra, tem que ir diminuindo aos poucos." - dissera um.

"Compre balinhas para as piores horas." - aconselhara Dona Beatriz, uma ex-fumante.

Antonio chegara a considerar o conselho da experiente senhora mas riscara o ítem da lista ao ouvir os estalidos irritantes que ela fazia ao chupar as balinhas. Lembrava-se dela acendendo um cigarro após o outro. Não sabia porque não conseguia vê-la como uma ex-fumante, parecia que o cheiro já havia se apossado de todo ar à sua volta. Devia ser culpa das balinhas, ela substituíra um vício por outro e para ser franco, preferia quando ela punha cigarro entre os lábios, sempre ao canto, por estar constantemente organizando e decidindo as tarefas.

O barulho do celofane de mais uma balinha sendo aberta interrompeu seus pensamentos. Não, não seria ele mais um a entrar na turma dos shracks, aquele irritante barulho de celofane sendo retorcido e os estalidos de língua. Era homem, pô! Que parasse de uma vez por todas.

Voltava a pensar nos livros. Nunca fora um leitor mas a situação pedia medidas de emergência. Não sabia quem eram os melhores autores e dispensara os palpites que lhe deram. Não queria parecer um ignorante, mas não aceitaria os livros de sucesso. Ouvira falar de alguns mas todo aquele glamour que envolvia-os, devia-se mais ao marketing do que à qualidade do conteúdo. Os amigos que haviam lido algumas daquelas obras haviam se decepcionado terrivelmente, chegavam a não entender como aquelas porcarias literárias puderam ser aceitas por alguma editora.

Se iria encarar a literatura, teria que ser uma experiência agradável. Escolheria enquanto folheasse os livros à venda, olharia só os autores brasileiros, os estrangeiros com seus frangos fritos, quebra-quebras e traições na CIA que se danassem!

Três livrarias, seis livros. Seis brasileiros que seriam sua companhia nos próximos dias. O que lhe diriam eles se soubessem que seriam de vital importância para sua saúde?

Achava engraçado como os não-fumantes eram capazes de jogar toda a culpa do vício pra cima dele.

“Se você quiser, você pára.”
“Se sabia que fazia mal porque começou a fumar?”
“Larga o cigarro, rapaz! Isso lhe faz mal.”

E mais uma série de nhanhanhás que só o fizeram fumar mais ainda. Bando de ignorantes, metidos a sabichões! Não sabiam os prazeres que existiam numa baforada, a primeira e a última eram as melhores, mais prazerosas Como a testar suas palavras, ato contínuo, acendeu um cigarro. Olhou para o fino cilindro que tinha entre os dedos.

“Penúltimo” – pensou.

Maldito Hollywood e aquelas propagandas felizes que geravam comentários entre ele e seus amigos, todos adolescentes na época. As músicas que utilizavam provocaram correrias às lojas para comprar o LP. Criava um impulso natural em consumir o cigarro como se assim pudessem manter a música por mais tempo em seus ouvidos. Decerto que se lembrava de todas aquelas melodias quando acendia um cigarro. Gostava mais ainda de fazer poses cinematográficas para impressionar as meninas da área. Conseguira namorar quase todas.

Bons tempos aqueles, agora as mulheres estavam exigentes. As que aceitavam fumantes eram fumantes também e ele detestava mulher que fumava, atrapalhava o cheiro natural delas. As melhores não queriam ao seu lado alguém que fumasse, comesse gorduras (adeus fatias de bacon!) ou não entendesse de guerras estrangeiras. Os homens deviam saber de Friedrich Nietzsche à novelas mexicanas, de capuccinos à crêpes suzettes, de desastres naturais aos últimos besteiróis de mulheres colunistas.

Tinha que reconhecer: gostava de fumar mas gostava mais ainda das novas mulheres modernas, sem conflitos, decididas, donas de si.

Por sua saúde e pelas mulheres, sabia ue estava tomando a decisão mais acertada. Tudo por uma boa causa, ou melhor, duas!

Aloha! Namastê! Sawabona!

9.22.2006

Tempestade

Em dias de tempestade não se constrói novas pontes, reforçam-se suas fundações.

Aloha! Namastê! Sawabona!

8.04.2006

Dezoito Anos

Armando completaria 18 anos no dia seguinte. Estava ansioso e feliz.

Iria ver um filme pornográfico no cinema com alguns amigos mais velhos e logo depois iriam à boate - programas impróprios a menores de 18 anos.
A partir do dia seguinte seria um homem. Poderia dirigir seu próprio carro, comprar bebidas alcólicas, cigarros e zoar com os adolescentes.
Na próxima semana também iria entregar o currículo na empresa que seu tio trabalhava. O salário era bom e as tarefas não ficavam acumuladas, tinham bom número de funcionários, nenhum era menor de idade.
Já poderia ser preso como maior de idade, não teria mais a proteção da lei. Não que fizesse diferença, porque ele era um homem de bem mas, sabe-se lá se amanhã ou depois acaba sendo envolvido por algum mau-caráter inocentemente?
A partir de amanhã ficaria as madrugadas dos finais de semana nas ruas, curtindo. Responderia para sua mãe quando esta lhe chamasse a atenção:
- Eu já tenho 18 anos!

O menino não fumava, era um bom estudante e de caráter pacato. Depois da fase de experimentar bebidas alcólicas escondido dos pais em festinhas e baladas noturnas, aprendera a se controlar. Podia ser considerado como um bebedor responsável - bebia socialmente e não abusava.

A mãe estava preocupada com os comentários do rapaz sobre as atividades permitidas aos que atingiam a maioridade. Procurou em todos os momentos, esclarecer e aconselhar o filho mais velho. Mas essa juventude não quer saber de ouvir os pais...
Até os 14 anos tinha sido um dócil menino, seu companheiro e amigo. Na adolescência ficara atrevido e se zangava com a atenção materna. Lamentava o final da infância e a perda do seu controle sobre o filho. A hora agora era de apreciar o resultado da educação que lhe dera. Rezava para que ele soubesse se comportar e fazer suas escolhas sozinho.

Muita coisa iria mudar dali por diante e sua mãe não podia impedir. Não ficaria mais perdendo seu tempo tomando conta da sua irmã caçula, nem ajudaria a carregar as compras do mercado porque teria suas próprias tarefas a cumprir. Não admitiria ser arrastado para almoços familiares em casas de parentes enjoados. Tinha muito que aproveitar antes de entrar na faculdade. Não permitiria ser tratado como criança, nunca mais. Sorriu interiormente, já sabia agir como homem.

Olhou para sua irmãzinha que se irritara por não conseguir montar sua cidade com seus bloquinhos de brinquedo. Ela era mesmo desajeitada. Sentou-se ao seu lado no chão e pôs-se a ajudá-la a armar sua cidade. Quando terminaram, ela bateu palminhas e riu. Fazer 18 anos perdeu toda a importância. Aquela era sua irmã, ela precisava dele. Ele a amava e sentia a força desse amor em cada sorriso que ela lhe provocava. Passaria mais tempo a seu lado e a levaria para passear mais vezes. Estaria a seu lado, protegendo-a e a ajudando nas pequenas tarefas. Não precisava de aniversários para realizar tarefas de homens maduros, dezoito anos já não era tão importante como imaginara. Já era um homem maduro.

Aloha! Namastê! Sawabona!

O Caso

Ele já tivera muitas mulheres, amara a todas igualmente - cada uma a seu tempo.
A quatro anos estava sozinho, por opção. Depois do último relacionamento, decidira que a próxima mulher seria especial. Ela deveria trazer consigo as melhores características das anteriores. A beleza sensual da primeira, o bom humor infindável da segunda, a calma prudência da terceira, o gosto pelo risco da quarta.

Assim como todas as anteriores, a próxima deveria ter gosto pela vida, gostar de vários estilos musicais e ter a capacidade de manter a conversa sem parcimônias com suas opiniões. Ele gostava de mulheres ativas, desenvoltas e de opiniões fortes bem construídas. Saíra com algumas mulheres mas não havia ultrapassado a marca dos beijos mais ardentes, nem com as que se mostraram mais receptivas a seus avanços. Não queria mais só a cama, queria a cama e mesa.

Sua vida ia bem, era um homem de ampla cultura e extremo bom gosto. Não chegava a ser rico mas levava uma vida confortável, que lhe permitia freqüentar bons restaurantes sem esquecer-se do boteco pé-sujo da esquina, onde costumava tomar algumas cervejas atento aos rumores das conversas ao seu redor. Gostava dessa conversa despreocupada, sem os requintes do ambiente profissional a que estava acostumado.

Nos finais de semana, flutuava entre os inúmeros eventos culturais de sua cidade. Não queria arriscar-se a ouvir comentários inoportunos sobre Kranz, Ganons e outros sobrenomes que aprendera a apreciar. Levava uma companhia feminina de vez em quando mas quase sempre ia sozinho. Gostava de ir sozinho.

Sozinho.
Lembrava-se do tempo em que, a simples previsão de ficar sozinho lhe causava tamanho desespero. Fez da solidão, sua aliada e do silêncio, sua força. Aprendera sobre os círculos frutíferos da solidão, descobrira prazeres que até então, desconhecia. Sentia-se satisfeito com o rumo que sua vida tomara. Era sozinho mas não infeliz.

Hoje pensava que todos deveriam morar um tempo sozinhos antes de começarem a se relacionar com alguém. A vida era nivelada pra cima, seu contato consigo mesmo fora aperfeiçoado ao máximo. Entregara-se à tarefas que lhe causavam prazer que antes seriam eternamente retardadas. A solidão lhe dera poderes que fizeram com que seus dias seguissem tranqüilos. Tudo ia bem, até deparar-se com um vulcão chamado Marina...

Marina. Só de materializar-se em sua mente, todo seu seguro mundo se desmoronava. Sentia-se atingido por algum terremoto de escalas mais altas que as padronizadas pela Escala Richter.
Nada mais o satisfazia. Nas refeições faltava-lhe a conversa afiada, nos eventos sentia falta de um certo olhar inquisidor, na cama sentia frio... Faltava-lhe o cheiro de Marina.

Como descrevê-la ao certo? Não sabia. Menina, mulher, curiosa, expressiva, generosa. Havia um certo ar de classe que brotava espontâneo. Assim era ela: inquisitiva, inconstante e segura. Dona de uma sensualidade tão íntima que nem parecia aperceber-se dela. Intensa. Devastadora. Feminina. Marina era o sinônimo de vida, reflexo de uma alegria que transbordava em sua gargalhada límpida. Sempre tão segura de si que ele sentia-se culpado ao lado dela. Culpado pelas extremas sensações que ela despertava nele.

Desde então, passara a sair com várias mulheres e trazê-las para sua cama. Buscava Marina em cada uma delas. Não encontrava nem seu reflexo. Sua vida estava de pernas pro ar, descontrolada e insone. A solução era acabar com o fantasma de Marina ou não teria paz.

Tomou coragem e convidou-a para sair mais uma vez - passariam um dia juntos. Levara-a aos piores lugares que conhecia, os mais lúgubres e deprimentes. Descobrira um brilho novo em cada um deles. Não se dava por vencido e resolvera levá-la para jantar num restaurante de comida tão intragável quanto possível e, surpreendera-se como sabor inebriante da carne dura. Sorvera o whisky paraguaio com a mesma ânsia de um apreciador dos melhores vinhos. Esbaldara-se em boates de quinta categria, ao sabor de ritmos jovens de batucadas barulhentas. Rira como nunca. Impressionara-se com a alegria de Marina que enfrentava suas péssimas escolhas como quem experimenta uma nova febre mundial. Quando finalmente chegou a hora de levá-la embora, experimentou a intensa dor do abandono. Decidou como uma última cartada, levar Marina para sua casa, sua cama.

O cheiro de Marina. A carne de Marina. O gozo pleno de Marina.

Voltara a tranquilidade de seus dias. Frequentava bons restaurantes, participava de inúmeros eventos culturais. Redescobrira a vida.

A seu lado, se via Marina - sua menina, sua mulher.

Aloha! Namastê! Sawabona!