Antonio estava decidido a largar o cigarro no próximo final de semana. Planejara as noites de sexta-feira e sábado com afinco, acreditava que esses seriam os piores dias.
Seu projeto descrevia todos os seus passos, não sairia com a turma neste final de semana, passaria sozinho. leria, faria sua comida, veria alguns DVDs. Seu plano começaria hoje, depois de sair do trabalho. Iria a um bom shopping para aproveitar-se da lei que proibia o cigarro em suas dependências. Passaria o máximo de tempo possível olhando as vitrines e quando se cansasse, seguiria para uma das três livrarias. Compraria dois livros em cada uma. Tinha que escolher os livros que o acompanhariam naquilo que apelidara de "Projeto de Despoluição".
Os colegas de trabalho riam de seu propósito e faziam apostas dizendo que na segunda-feira ainda estaria fumando.
"Ninguém deixa de fumar de uma hora pra outra, tem que ir diminuindo aos poucos." - dissera um.
"Compre balinhas para as piores horas." - aconselhara Dona Beatriz, uma ex-fumante.
Antonio chegara a considerar o conselho da experiente senhora mas riscara o ítem da lista ao ouvir os estalidos irritantes que ela fazia ao chupar as balinhas. Lembrava-se dela acendendo um cigarro após o outro. Não sabia porque não conseguia vê-la como uma ex-fumante, parecia que o cheiro já havia se apossado de todo ar à sua volta. Devia ser culpa das balinhas, ela substituíra um vício por outro e para ser franco, preferia quando ela punha cigarro entre os lábios, sempre ao canto, por estar constantemente organizando e decidindo as tarefas.
O barulho do celofane de mais uma balinha sendo aberta interrompeu seus pensamentos. Não, não seria ele mais um a entrar na turma dos shracks, aquele irritante barulho de celofane sendo retorcido e os estalidos de língua. Era homem, pô! Que parasse de uma vez por todas.
Voltava a pensar nos livros. Nunca fora um leitor mas a situação pedia medidas de emergência. Não sabia quem eram os melhores autores e dispensara os palpites que lhe deram. Não queria parecer um ignorante, mas não aceitaria os livros de sucesso. Ouvira falar de alguns mas todo aquele glamour que envolvia-os, devia-se mais ao marketing do que à qualidade do conteúdo. Os amigos que haviam lido algumas daquelas obras haviam se decepcionado terrivelmente, chegavam a não entender como aquelas porcarias literárias puderam ser aceitas por alguma editora.
Se iria encarar a literatura, teria que ser uma experiência agradável. Escolheria enquanto folheasse os livros à venda, olharia só os autores brasileiros, os estrangeiros com seus frangos fritos, quebra-quebras e traições na CIA que se danassem!
Três livrarias, seis livros. Seis brasileiros que seriam sua companhia nos próximos dias. O que lhe diriam eles se soubessem que seriam de vital importância para sua saúde?
Achava engraçado como os não-fumantes eram capazes de jogar toda a culpa do vício pra cima dele.
“Se você quiser, você pára.”
“Se sabia que fazia mal porque começou a fumar?”
“Larga o cigarro, rapaz! Isso lhe faz mal.”
E mais uma série de nhanhanhás que só o fizeram fumar mais ainda. Bando de ignorantes, metidos a sabichões! Não sabiam os prazeres que existiam numa baforada, a primeira e a última eram as melhores, mais prazerosas Como a testar suas palavras, ato contínuo, acendeu um cigarro. Olhou para o fino cilindro que tinha entre os dedos.
“Penúltimo” – pensou.
Maldito Hollywood e aquelas propagandas felizes que geravam comentários entre ele e seus amigos, todos adolescentes na época. As músicas que utilizavam provocaram correrias às lojas para comprar o LP. Criava um impulso natural em consumir o cigarro como se assim pudessem manter a música por mais tempo em seus ouvidos. Decerto que se lembrava de todas aquelas melodias quando acendia um cigarro. Gostava mais ainda de fazer poses cinematográficas para impressionar as meninas da área. Conseguira namorar quase todas.
Bons tempos aqueles, agora as mulheres estavam exigentes. As que aceitavam fumantes eram fumantes também e ele detestava mulher que fumava, atrapalhava o cheiro natural delas. As melhores não queriam ao seu lado alguém que fumasse, comesse gorduras (adeus fatias de bacon!) ou não entendesse de guerras estrangeiras. Os homens deviam saber de Friedrich Nietzsche à novelas mexicanas, de capuccinos à crêpes suzettes, de desastres naturais aos últimos besteiróis de mulheres colunistas.
Tinha que reconhecer: gostava de fumar mas gostava mais ainda das novas mulheres modernas, sem conflitos, decididas, donas de si.
Por sua saúde e pelas mulheres, sabia ue estava tomando a decisão mais acertada. Tudo por uma boa causa, ou melhor, duas!
Aloha! Namastê! Sawabona!